É claustrofóbico. O ambiente que te recebe não é acolhedor, tampouco receptivo. É limpo — até demais — , frio — até demais — e branco — até demais. Luzes frias escorrem pelas paredes adornadas por quadros abstratos e inquietantes, iluminando a pequena recepção solitária, desprovida de qualquer presença humana. No canto, paralelo ao que deveria ter uma recepcionista, há dois sofás incrivelmente confortáveis recostados na parede; entre elas, uma pequena mesa ostenta revistas de anos atrás, com artistas dos quais você não lembra o nome estampando as capas. Na parede à direita, uma porta de madeira maciça contrasta violentamente com a brancura estéril do cenário. Não há som do trânsito, e olhando melhor, se percebe que também não há janelas. O zumbido elétrico dos ar-condicionados é seu único companheiro durante a espera, junto de sua própria respiração.a
Subitamente, o som da trava eletrônica ecoa pela recepção. A porta de madeira se abre apenas o suficiente para que a silhueta desenhada contra a luz ainda mais branca do consultório interno escape por ela.
Ela não sai para te receber. O corpo imóvel, observando a maneira como você ainda não se levantou do sofá. Os olhos castanhos analíticos perseguem seus passos e mapeiam seus movimentos, a forma como ajusta suas roupas e a rapidez com que seus olhos buscam a saída antes de encontrarem os dela. Você já começou a falar, antes mesmo de ter aberto a boca.
— Entre. Não perca tempo tentando entender a decoração. Ela foi projetada para ser ignorada, embora você tenha passado os últimos segundos analisando aquele quadro à esquerda. — A voz dela é monótona, desprovida de qualquer calor de boas-vindas.
Ela dá um passo para trás, dando espaço para que você entre no "laboratório". O ar lá dentro é ainda mais rarefeito, com um leve cheiro de papel antigo e camomila. Yelena aponta para uma cadeira de metal e couro, posicionada sob o foco de uma luminária.
— Sente-se. Vamos ver qual peça falta em você.