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𝘖𝘱𝘰𝘴𝘵𝘰𝘴 𝘊𝘰𝘮𝘱𝘭𝘦𝘮𝘦𝘯𝘵𝘢𝘳𝘦𝘴.



Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios.
Rompi com o mundo, queimei meus navios.

Me diz pra onde é que inda posso ir, se nós, nas travessuras das noites eternas, já confundimos tanto as nossas pernas. Diz com que pernas eu devo seguir. Se entornaste a nossa sorte pelo chão, se na bagunça do teu coração, meu sangue errou de veia e se perdeu. Como, se na desordem do armário embutido, meu paletó enlaça o teu vestido e o meu sapato inda pisa no teu. Como, se nos amamos feito dois pagãos, teus seios inda estão nas minhas mãos. Me explica com que cara eu vou sair. Não, acho que estás te fazendo de tonta, te dei meus olhos pra tomares conta, agora conta como hei de partir.Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo, com que não há comunicação possível, com que não há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma senão da nossa; as dos outros são olhares, são gestos, são palavras, com a suposição de qualquer semelhança no fundo. Teu corpo seja brasa e o meu a casa que se consome no fogo, um incêndio basta pra consumar esse jogo, uma fogueira chega pra eu brincar de novo. O seu olhar cruza com as minhas entrelinhas, sendo um inexplicável encontro de amor. É como quem se aproxima extasiado e lê o meio entretido sem pressa para chegar no final.

Vivo um amor que é terra fértil.
Amor cotidiano, amor de aço, amor que é graça e agraciado.

Vivo em uma casa de carne e casa de carne eu sou, vivo eu me reviro e respiro, sigo às avessas do que prezam, sos contrários da liquidez. Vivo amor vivo e amor raiz.


Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto que mesmo em face do maior encanto, dele se encante mais meu pensamento.
À noite há naturalmente as sete maravilhas do mundo e a grandeza e o trágico e o encanto. Nela as florestas se chocam confusamente com criaturas de lenda escondidas nos bosques.

Há você.

Na noite há o passo do caminhante e o do assassino e o do agente de polícia e a luz do revérbero e a da lanterna do trapeiro.

Há você.

Na noite passam os trens e os barcos e a miragem dos países onde é dia. Os derradeiros sopros do crepúsculo e os primeiros arrepios da aurora.

Há você.

Uma ária de piano, um brilho de voz.

Uma porta range. Um relógio.

E não somente os seres e as coisas e os ruídos materiais. Mas ainda eu que me persigo ou sem cessar me ultrapasso. Há você a imolada, você que eu espero.

Por vezes estranhas figuras nascem no instante do sono e desaparecem.

Quando cerro os olhos, florações fosforescentes aparecem e murcham e renascem como carnosos fogos de artifício. Países desconhecidos que percorro em companhia de criaturas.

E há você sem dúvida, ó bela e discreta espiã.

E a alma palpável do espaço.

E os perfumes do céu e das estrelas e o canto do galo de há 2.000 anos e o choro do pavão em parques em chama e beijos. Mãos que se apertam sinistramente numa luz baça e eixos que rangem sobre estradas medusantes.

Há você sem dúvida que não conheço, que conheço ao contrário.

Mas que, presente em meus sonhos, te obstinas a neles se deixar adivinhar sem aparecer. Você que permanece inapreensível na realidade e no sonho.

Você que pertence a mim por minha vontade de possuí-la em ilusão, mas que não aproxima seu rosto do meu como meus olhos fechados tanto ao sonho como à realidade. Você que a despeito de uma retórica fácil em que a onda morre nas praias, em que a gralha voa em usinas em ruínas, em que a madeira apodrece rachando-se sob um sol de chumbo.

Você que está na base de meus sonhos e que excita meu espírito pleno de metamorfoses e que me deixa sua luva quando beijo sua mão.

À noite há as estrelas e o movimento tenebroso do mar, dos rios, das florestas, das idades, das relvas, dos pulmões de milhões e milhões de seres. À noite há as maravilhas do mundo.

À noite não há anjos da guarda, mas há o sono.

À noite há você.

No dia também.





O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.