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𝔬𝔡𝔢 𝔱𝔬 𝔪𝔞𝔪𝔞𝔫 (𝟸𝟶𝟸𝟼).




[...] Uma vez sonhei que éramos pássaros. Corvos enormes, e voávamos juntas pelo céu, numa paisagem brilhante de gelo. O sol estava forte, refletindo em tudo, e parecíamos estar nadando e pulando e rodando numa piscina gigante de diamantes. Quando descíamos até o chão de cristal, mama e eu virávamos Anna e Mischa outra vez, e ela fazia tranças no meu cabelo e beijava cada uma das minhas sardas no rosto. "Você tem o rostinho mais lindo do mundo, passarinho." Acho que a mama não sabe que nossos rostinhos são iguais, e que na verdade, ela sim tem o rosto mais lindo do mundo.

Na minha terra dos sonhos, mama e eu voamos para sempre — juntas. Corremos pelos corredores infinitos de casas-labirinto, com nossos pijamas e cabelos voando; tomamos chás em quartos secretos, lemos livros de páginas em branco e rabiscamos nas paredes. Toda a vez que fecho os olhos, estamos no hall de uma grande mansão queimada, e mama rasga o papel de uma parede. "Bem-vinda em casa, Mischa", é o que está escrito, e brincamos por muitas horas antes de virarmos pássaros e voarmos.

Fiz minha própria música hoje. É a mesma melodia da sua: "eu te amo, corvo negro, e tudo de mim é seu!". Papa disse que corvos negros são presságios para morte e loucura, mas nós somos passarinhos de corvos negros nos meus sonhos, então ficaremos bem. A música é assim: "eu te amo, mama, e tudo de mim é seu!"

Eu te amo, mama, eu te amo, mama, eu te amo, mama, eu te amo, mama, eu te amo, mama, eu te amo, mama, eu te amo, mama, eu te amo, mama, eu te amo, mama [...]
(a escrita continua até o fim da página).

— carta escrita por Mischa para Marzanna em 09/01/2023."