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♥. 𝟏𝟗𝟗𝟐 : (𝒿𝘰𝘶𝘳𝘯𝘢𝘭 of solitude ⅋ despair.)

   "...Não posso ter a certeza de nenhum acontecimento ou lugar a não ser da minha solidão. Diz-me, pois, o que as estrelas contam de mim? Será que Saturno tem olhos de cebola que não param de chorar? Mercúrio tem penas de galinha nos calcanhares? Marte usa uma máscara de gás? Há no meu olhar uma ruptura por onde a loucura sempre escoa. Debruça-te sobre mim na cabeceira da minha demência e depois deixa-me de pé sem muletas. Sou uma mulher louca a quem as casas piscam o olho e oferecem a hospitalidade dos seus ventres.
   De todos os lados o sentido das coisas abre um olhar sobre mim, como um ente fantástico enorme e subjacente. O sentido emerge de caminhos húmidos e de faces sombrias, debruça-se nas janelas de casas estranhas. Reconstruo constantemente a imagem de uma coisa que perdi para sempre e que não posso esquecer. Agarro nas esquinas os cheiros do passado e tenho consciência dos que vão nascer amanhã. Por detrás das janelas ou há inimigos ou adoradores. Nunca neutralidade ou passividade. Sempre a intenção e a premeditação. Até as pedras têm para mim linguagem druídica.

   Caminho à frente de mim própria na espera perpétua de milagres.
   Lágrimas salgadas de derrota cristalizaram nos cantos dos olhos inquietos.
   Só que eu nunca choro.

   Sou a mulher mais cansada do mundo. Fico cansada assim que me levanto. A vida requer um esforço de que me sinto incapaz. Por favor, passa-me esse livro pesado. Preciso de pôr qualquer coisa pesada sobre a cabeça. Necessito constantemente de pôr os meus pés sob almofadas para que consiga continuar na terra. Do outro modo sinto-me partir, partir a uma velocidade tremenda, tão leve me sinto.
   Sei que estou morta. Logo que pronuncio uma frase a sinceridade morre e torna-se numa mentira cuja frieza me gela. Não me digas nada, vejo que me entendes, mas tenho receio da tua compreensão, tenho medo de encontrar alguém semelhante a mim e ao mesmo tempo desejo-o. Sinto-me tão definitivamente só, mas tenho tanto medo de que o isolamento seja violado e eu não seja mais o cérebro e a medula do meu isolamento..."